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“Eu passei 10 anos esperando por essa sentença”: vítima relata abusos cometidos pelo próprio pai e teme novas violências

Mulher de 21 anos, que hoje reside em Canela, contou ao Jornal Digital Canela os traumas que carrega desde a infância. Pai foi condenado a 16 anos e 6 meses de prisão, mas segue foragido

CANELA | Durante dez anos, ela esperou por uma resposta da Justiça. Esperou que o homem que deveria protegê-la fosse responsabilizado pelo sofrimento que, segundo a denúncia e a sentença judicial, lhe causou quando ainda era criança.

Hoje, aos 21 anos, morando em Canela, ela carrega marcas que afirma não desaparecerem com uma condenação. O pai foi condenado pela 2ª Vara Judicial da Comarca de Igrejinha a 16 anos e 6 meses de reclusão, em regime inicial fechado, pelo crime de estupro de vulnerável. A sentença também determinou o pagamento de R$ 30 mil de indenização mínima por danos morais. Até o fechamento desta reportagem, porém, o condenado permanecia foragido.

Em um relato concedido com exclusividade ao Jornal Digital Canela, a vítima decidiu falar sobre aquilo que durante anos não conseguiu compreender, lembrar ou contar. Um depoimento marcado por lacunas de memória, medo, sofrimento psicológico e pela tentativa de reconstruir uma infância que, segundo ela, foi atravessada por abusos físicos, sexuais e psicológicos.

“Eu tive amnésia dissociativa, então eu não lembro exatamente de como ocorreu e o que aconteceu. O que me resta são as sensações, traumas e gatilhos.”

Uma infância marcada pelo medo

Os pais da vítima eram separados. Ela conta que suas primeiras lembranças relacionadas ao pai remontam à infância, quando ainda vivia com a mãe e visitava o pai em um sítio. Algumas situações aparentemente cotidianas ficaram registradas de maneira traumática. Entre elas, sons que até hoje funcionam como gatilhos. A música de abertura do Jornal Nacional e do Altas Horas, por exemplo, remetem à chegada do pai do trabalho.

Ela também relata ter presenciado uma situação íntima envolvendo o pai e a madrasta enquanto dormia no mesmo ambiente. Em outra lembrança, conta que o pai teria prometido que determinado animal seria dela, mas posteriormente fez questão de matá-lo diante dela.

Ainda criança, ela e a mãe chegaram a obter uma medida protetiva contra o homem. Posteriormente, porém, a medida foi cancelada pela Justiça, dando início a uma tentativa de reaproximação entre pai e filha.

Primeiro, as visitas eram acompanhadas. Depois, passaram a ocorrer somente entre os dois. Por volta dos 9 ou 10 anos, segundo o relato, ela começou a passar finais de semana na casa do pai, em Igrejinha, a cada 15 dias.

“Eu sempre tive muito medo”

A vítima conta que, embora houvesse momentos agradáveis durante as visitas, eles geralmente aconteciam na presença de outras pessoas. “Com ele, eu sempre tive muito medo. Eu me sentia vulnerável”, relata. Ela afirma que, naquela época, não conseguia compreender exatamente o que estava acontecendo. Os abraços, os carinhos e situações em que dormiam no mesmo ambiente despertavam nela uma sensação de que havia algo errado.

“Eu achava que era coisa da minha cabeça, nem sabia interpretar meus sentimentos, mas sabia que tinha algo errado”, conta.

Segundo ela, notícias sobre pais que maltratavam ou abusavam dos próprios filhos provocavam uma identificação que, naquele momento, não conseguia explicar. Ela passou a criar resistência às visitas e procurava desculpas para não ir à casa do pai.

Manipulação e violência psicológica

Além dos episódios de natureza sexual, a vítima descreve uma relação marcada, segundo ela, por cobranças, chantagens e manipulação emocional. Uma das lembranças mais fortes são as cartas que o pai escrevia para ela. Em determinada ocasião, ainda após o período de visitas assistidas, os dois estavam sentados em uma praça próxima à sua casa quando ele retirou um papel previamente escrito e começou a ler.

Segundo ela, aquele tipo de carta se repetiria outras vezes. “Ele conseguia me manipular fazendo isso. Ouvindo coisas horríveis vindo de quem deveria cuidar de mim, mexia muito comigo. Essas cartas eram horríveis”, relata.

A vítima afirma que as cobranças faziam com que se sentisse uma filha ruim e uma criança ruim. “Eu me senti um lixo, eu me senti uma péssima filha e uma péssima criança naquele momento. Era desesperador.”

Finais de semana que terminavam de madrugada

Ela relata ainda que a rotina das visitas era incomum para uma criança. O pai a buscava por volta das 13h, quando saía do trabalho. Na casa dele, segundo o relato, preparava leite com achocolatado e torradas. Depois disso, ela afirma que frequentemente apagava e não se recordava do que acontecia. Quando retornava para casa, já era madrugada, por volta das 4h ou 5h, horário em que o pai começava a trabalhar. Segundo ela, a rotina interferia diretamente em seus horários e também no desempenho escolar.

Em uma das lembranças que conseguiu preservar, conta que acordou assustada durante uma soneca e viu o pai em uma situação que a deixou aterrorizada. Ela permaneceu imóvel, sem saber como reagir. A vítima também afirma que, embora tivesse um quarto na casa do pai, frequentemente dormia em um colchão no chão ao lado dele porque não gostava de dormir sozinha. Ela relata que se sentia desconfortável com a forma como o pai dormia e que chegou a pedir que ele usasse roupas.

Os sinais que ninguém conseguia compreender

Com o passar do tempo, segundo o relato, começaram a aparecer sinais físicos e comportamentais que chamaram a atenção da mãe. A jovem afirma que retornava dos finais de semana com o pai apresentando ferimentos na região anal e acreditava que aquilo pudesse ser consequência de problemas intestinais.

Até que decidiu mostrar à mãe. A situação despertou preocupação e, posteriormente, teria contribuído para que as visitas fossem interrompidas. A família passou a criar desculpas para que ela não precisasse voltar a Igrejinha, até que completasse 12 anos.

Ela conta que aguardava ansiosamente o aniversário porque sabia que, naquela idade, poderia manifestar sua vontade sobre a continuidade das visitas. “Eu lembro de contar as semanas para completar os meus 12 anos.”

O CREAS e o início da busca por respostas

Em novembro de 2016, dois meses antes de completar 12 anos, a menina foi acompanhada pela mãe ao CREAS de Canela. O objetivo inicial era buscar orientação sobre como suspender definitivamente as visitas. Segundo ela, as profissionais começaram a questionar o motivo de uma criança demonstrar tanto medo do próprio pai.

A partir daquele momento, teve início uma série de procedimentos. Em 2017, passou semanas viajando a Porto Alegre para realizar exames e prestar depoimentos a peritos. “Eu não entendia nada do que estava acontecendo, mas sabia que não era justo eu estar passando e sentindo tudo aquilo.” O Ministério Público ingressou com ação penal contra o pai por estupro de vulnerável.

Dez anos esperando pela sentença

O processo se estendeu por anos. Enquanto a Justiça analisava as provas, a vítima crescia carregando as consequências do que havia vivido. Em janeiro de 2023, já aos 18 anos, ela afirma ter vivido uma das piores crises de sua vida após o pai entrar em contato por meio de um perfil de sua prima.

Segundo ela, ele voltou a escrever uma carta. A reação foi de desespero. “Eu gritava, chorava, batia meus pés, minhas mãos e minha cabeça na parede do meu quarto.”

Ela afirma que, durante aquele episódio, o pai teria tratado sua reação como se fosse uma demonstração de loucura e negado que qualquer coisa tivesse acontecido.

A condenação

Na sentença, a 2ª Vara Judicial da Comarca de Igrejinha considerou comprovadas a materialidade e a autoria do crime. Entre os elementos analisados estavam depoimentos colhidos durante a instrução, documentos produzidos na fase policial e uma avaliação psíquica realizada por perita do Instituto-Geral de Perícias (IGP).

Conforme a decisão, a avaliação identificou sofrimento psíquico relacionado aos fatos e considerou o relato da vítima compatível com critérios técnicos de credibilidade.

A defesa apresentou argumentos pela absolvição e questionou a credibilidade do relato, inclusive apontando possível influência de conflitos familiares. As teses, contudo, foram rejeitadas pela magistrada, que considerou o conjunto de provas suficiente para a condenação.

Na definição da pena, foram consideradas a gravidade da conduta, os motivos do crime, a idade da vítima e o fato de o condenado ser seu pai, circunstância que resultou na aplicação do aumento de pena previsto para crimes praticados por ascendente.

A pena foi estabelecida em 16 anos e 6 meses de reclusão, em regime inicial fechado, além de R$ 30 mil de indenização mínima por danos morais.

Apesar da condenação, o homem não havia sido localizado até o fechamento desta reportagem.

“Infelizmente, o abuso faz parte de quem eu sou hoje”

A sentença que ela esperou durante uma década finalmente chegou. Mas, para a vítima, ela não apaga o passado. Ela afirma que desenvolveu consequências psicológicas que carregará pelo restante da vida.

“Esperei tanto a sentença contra ele, com a expectativa de que tudo ia passar e mudar, mas infelizmente minha personalidade já foi moldada, minhas crenças já estão formadas, minha autoimagem não vai mudar.”

E resume a dimensão das marcas que ficaram:

“Infelizmente o abuso, sexual e psicológico, fazem parte de quem eu sou hoje.” Para ela, a condenação representa uma forma de reconhecimento do que aconteceu, mas não significa o fim do medo. O fato de o condenado ainda estar foragido mantém uma sensação de insegurança. “Eu sempre temo algo ruim vindo dele, porque ele sempre dá um jeito de se safar. Tenho medo do que ele possa fazer depois da sentença e também depois que ele for preso.”

“Espero que ele possa ser encontrado”

Ao decidir falar publicamente, a vítima afirma ter também uma esperança: que a repercussão do caso contribua para que o condenado seja localizado. Ela passou anos em silêncio. Um silêncio que, segundo ela, não significava que nada havia acontecido, mas que era consequência de um trauma que tornou até as próprias memórias difíceis de acessar.

Agora, aos 21 anos, decidiu contar sua história. Não para reviver o passado, mas para tentar fazer com que sua voz seja ouvida. “Eu passei 10 anos esperando a sentença sair, para que ele pagasse o que fez comigo, com a minha irmã por parte de mãe que também sofreu abusos, e possivelmente com outras crianças também. Agora, finalmente ele foi condenado, mas infelizmente está foragido.”

E deixa um último pedido:

“Espero que com os meus relatos e com a repercussão, ele possa ser encontrado.”

Importante: por se tratar de uma vítima de violência sexual ocorrida quando ela era criança, o Jornal Digital Canela preserva sua identidade e não divulga informações que possam permitir sua identificação.

Atenção: a condenação mencionada nesta reportagem refere-se à decisão judicial da 2ª Vara Judicial da Comarca de Igrejinha e ainda cabe recurso.

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